Nossa contribuição para a blogagem coletiva:
Professores do Brasil
Ao elaborar este texto, fiz uma retomada de minha trajetória como aluna, professora e dos cargos administrativos que ocupei, o que foi muito gratificante. Foi bom rever os velhos álbuns de fotografias, lembrar histórias dos alunos, professores e colegas, de dificuldades do dia a dia escolar, dos estágios; foi também um resgate feliz e ansioso dos acertos e erros cometidos enquanto aluna e professora.
Parte de minha vida escolar está apoiada na educação influenciada pelo período de 60, em que o Brasil viveu com intensas reivindicações, por meio de greves, passeatas, movimentações políticas (por conscientização das massas), culminando com o Golpe Militar de 64, que supostamente tenta o resgate dos valores morais, religiosos e econômicos.
Desta forma, o objetivo dos cursos que realizei, era o de reproduzir na escola os valores políticos do golpe. Inúmeras reformas educacionais foram elaboradas para despojar a escola de seu caráter formador; e os estudantes e a população foram impedidos, na sua grande maioria, de perceber a corrupção e a opressão que estavam mantendo o povo, pois se tencionava apenas o fortalecimento da classe alta.
Ao terminar o curso em 1972, na “Escola da Praça”, como era conhecido o Instituto de Educação “Caetano de Campos” e ávida por conhecer a realidade e colocar em prática os conhecimentos adquiridos, fui estagiar como professora auxiliar na Piratinis Instituto Educacional, que atende crianças com disfunção cerebral. Essa experiência gerou um sentimento de impotência e frustração, que não pude por muito tempo aceitar e entender.
Esses sentimentos não tiraram, no entanto, meu entusiasmo pelo magistério!
Não muito diferente dos dias de hoje, no Brasil, os anos 80 se caracterizaram pela organização de movimentos de educadores e pela discussão sobre a formação de professores, iniciada essa movimentação nos anos 70 agora elas se intensificavam, tanto na questão salarial e por melhores condições de trabalho, quanto a melhoria da educação e da formação profissional.
Para poder continuar meus estudos, fui trabalhar fora da instituição escolar, em empresas, pois necessitava de recursos financeiros; minha experiência fora da escola, trouxe um outro “olhar,” mais crítico; a conhecer as pessoas; a ter “jogo de cintura”; a buscar soluções; a pesquisar. Aprendi muito nestes anos de empresa pública e privada.
Esta experiência entre o público e o privado foi a primeira polêmica que me fez pensar sobre minha opção na prática do magistério, relação refletida e criada ao longo dos anos, dizendo-se que a escola pública é a escola dos “sem opção” por uma educação melhor e diferenciada e a escola privada, a escola “dos com opção”, ou seja aqueles que podem escolher uma educação melhor e diferenciada.
Assim me preocupei durante muito tempo com a necessidade de transmitir conteúdos que dessem respostas rápidas e eficientes às dificuldades que encontrassem no dia-a-dia. Tentei instrumentalizar meus alunos da escola pública, impossibilitando que refletissem sobre sua prática, não deixando espaço para um crescimento pessoal e profissional.
Não demorei a perceber que praticava um ensino tecnocrata, declarava-me neutra e apolítica, um erro pois essa negação da dimensão política da educação significa, em última análise, sua colocação a serviço da ordem política e social existente.
Acredito ter sido este o momento em que comecei a questionar meu trabalho como professora: a metodologia, os conteúdos, a problemática dos cursos, a falta de recursos da escola estadual, o número de matérias que trabalhava - impossibilitando um conhecimento mais profundo de cada uma -, as questões salariais, os alunos com diferentes atitudes, comportamentos, problemas etc.
Embora carente em alguns aspectos, a escola pública, na época de minha contratação, 1986, já fazia discussões que buscavam uma melhoria do ensino . Os protagonistas dessas discussões são intelectuais, associações de trabalhadores, associações de educadores, entidades estudantis, que declaram o ano de 1982 como o “ano de defesa do ensino público”; até a Igreja questiona seu papel secular de educadora da classe dominante, e se volta para a defesa do ensino público, denunciando o descaso do Estado com a educação pública.
E do texto de Schön (1992) apreendi: "que a reflexão começa com a reflexão na ação; passa pela reflexão sobre a ação e pode e deve chegar à reflexão sobre a reflexão na ação".
SCHÖN, Donald A. Educando o profissional reflexivo - um novo design para o ensino e a aprendizagem, 2000.
Hoje, após a leitura da concepção de desenvolvimento de uma prática reflexiva descrita de maneira tão clara por Schön, confirmo a importância dos registros que faço e que me levam a tantas outras buscas e mudanças, durante todos estes anos, iniciei a reflexão e desenvolvimento de minha prática, pautadas sobre as questões que hoje são amplamente discutidas.
Paulo Freire, quando Secretário Municipal da Educação (1992), em seminário aos professores da Rede Municipal de Ensino de São Paulo se manifesta a respeito da formação dos professores:
“o processo de formação, sendo social, tem igualmente uma dimensão individual; às vezes uma ou outra dessas dimensões esta mais escondida, menos explicita... à formação tem uma dimensão educativa; ela requer trato ante o conhecimento que se busca. É inviável pensar a formação fora do conhecimento. Os seres humanos são chamados a conhecer, através de experiências de que participam... o que vai sendo conhecido durante a formação envolve opções políticas das pessoas... ao compreendermos isso nós nos colocamos questões como: quem forma quem? Quem forma para quê? Formar-se contra o quê? Formar-se a favor de quê?... As pessoas e as instituições formadoras que não se respondam essas questões estão, a meu ver, burocratizando demais a prática formadora e reduzindo o conhecimento”.
Transcrito de uma gravação fonográfica do evento
Quero lembrá-los que é necessário que se conheça a forma de interação dos professores, no âmbito da escola, da sala de aula, de sua família, de sua inserção na profissão, o domínio que tem do conteúdo e sua prática pedagógica; relações interpessoais estarão presentes em seu dia-a-dia, sua experiência sensorial, emocional, afetiva e cognitiva, estarão presentes em sua organização, em sua prática pedagógica.
É pensando na importância do nosso trabalho de professor e educador, que proponho/convido você, leitor, a fazer uma releitura do nosso papel na escola e na sociedade de hoje.
FELIZ DIA DO PROFESSOR!
Maria Aparecida Anversa - Cidinha
Coordenação Ciclos III e IV